Prozac e Xanax

Lendo as analises feitas aos livros “Admirável Mundo Novo” e “1984” do Aldous Huxley e George Orwell respectivamente – na grande maioria dos casos – os críticos concluem que se trata de um aviso mostrando uma anti-utopia exagerada do futuro. O valor do perigo de tal sistema é assim afastado e o aviso fica meio que descredibilizado. Digo isto porque, por varias vezes em conversas com amigos, quando comparo com esses livros ouço logo um: – Sim, mas esse livro também é levado ao extremo, não podes comparar! Tendo em conta que a maioria das pessoas que me atira com esta resposta nem leu o livro eu quero, com este “artigo”, deixar um aviso.

Os livros não retratam uma distopia; não são irreais e não são levados ao exagero. Tratam de uma previsão do futuro. E não é uma previsão ao estilo Nostradamus. O mundo de 1932 é muito diferente do mundo actual, e o número de semelhanças com o “Admirável Mundo Novo” é muito maior agora.

Existem [pelo menos] dois agentes que nos impedem de ver estes documentos como previsões precisas do futuro: 1) O tempo que leva à implementação do conjunto total de alterações; 2) O conjunto de pessoas que incentivam e ao mesmo tempo menosprezam (propositadamente) os fenómenos que levam à aproximação da sociedade descrita.

O tempo aqui surge como um elemento passivo mas de altíssima importância. Se as alterações ocorressem de forma revolucionária e imediata as pessoas davam pelas diferenças e naturalmente e inconscientemente, sem necessidade de raciocínio dedicado, criavam resistência. Se as alterações forem passadas de forma lenta e progressiva, passando a educação e o activismo necessário para que peguem, apenas as pessoas que dediquem raciocínio ao problema em concreto têm a capacidade de fazer resistência. Esta resistência que, no caso inicial é tomada pela maioria, no caso seguinte só existe numa minoria da sociedade.

Os agentes que promovem esta sociedade desempenham o papel de elemento activo. Estes agentes estão infiltrados (conscientes ou não da sua função) em todos os sistemas que possuam o mínimo de influencia social.

Onde e como é que já nos aproximámos e quais são os próximos passos?

Agora que a base já está minimamente explicada vou fazer algumas considerações. Uma das principais características destes livros é a dimensão do estado e a sua importância na vida quotidiana da população. Existe um governo mundial – mesmo no “1984” há alturas em que se pode deduzir que apenas existe um país. A ONU tenta tomar para si este papel, e garantidamente está mais perto hoje do que já alguma vez esteve. Os países europeus perdem, diariamente, soberania para a Europa e esta consequentemente perde para a ONU.

O Soma, a droga do livro, é hoje chamada de Prozac e Xanax. Este binómio entre relaxante/calmante e speed deixa o seu consumidor num estado de apatia ideológica. Aliando o estado psicológico deixado por estas drogas (e outras do mesmo tipo) com a cultura do YOLOgera-se um Homem novo, adaptado a um mundo novo. Este Homem novo vive para os prazeres da carne e para a carreira profissional. Trabalha que nem um cão durante o dia e à noite vai para os bares arranjar carne. Trocou o seu “padre de confissões” e o temor a Deus por o seu “médico de confissões” e o temor à doença. Este Homem não existe apenas no livro, este Homem já existe nos dias de hoje.

Os velhos já são abandonados nos hospitais e lares, e tratados como inexistentes tal qual como no livro eram tratados os moribundos e idosos (aconselho que vejam os números de abandono de idosos, é hediondo).

As famílias estão a desaparecer em prol de grupos de “amigos” que se “rodam” entre si. A prática da solidão e da reflexão é substituída por constante contacto, mesmo entre as quatro paredes as redes sociais “impedem” a saudável prática do “estar sozinho”. A Internet já se tornou, em parte, a teletela dos novos tempos e vai tornar-se totalmente no dia em que a Internet for regulamentada (uma questão de tempo).

O mais assustador nisto é que aquilo que ainda não foi alcançado socialmente só não o foi porque a tecnologia não o permite. No dia em que for possível não “envelhecer” e morrer de velho com a cara de 20 anos de idade tenho a certeza que as pessoas vão aderir em massa. No dia em que for possível produzir crianças fora do útero de uma mulher a desculpa de que o corpo se vai estragar (que já justifica a não gravidez de hoje) vai tornar-se uma máxima. Em primeiro lugar, as poucas famílias que ainda existirem passam a “comprar” os seus filhos, isto naturalmente retira a necessidade de haver famílias. O estado começa a produzir conforme a necessidade. As crianças passam a pertencer ao estado e assim sem ninguém dar por nada alcançamos um admirável mundo novo.

Por isto digo, os livros não são distopias. É preciso criar resistência a isto, e esta resistência tem de partir da educação cultural e da educação moral.

Sim, admito que o “Admirável Mundo Novo” me parece mais provável que o “1984” mas mesmo assim vejo muita coisa do “1984”.

EDITADO (2 Janeiro 2014): Encontrei, por puro acaso, no youtube, estas declarações bem interessantes do Aldous Huxley:

http://www.youtube.com/watch?v=2cF-GW0TQkI

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